terça-feira, 7 de junho de 2011

COMO SE ESTIVESSEM EM CASA

Asilos brasileiros. Ao contrário do que diz o senso comum, essas instituições podem melhorar a qualidade de vida dos idosos, independente da classe social.
“O envelhecimento da população e o aumento da longevidade de pessoas com capacidade física, cognitiva e mental reduzidas requerem que os asilos deixem de fazer parte apenas da rede de assistência social e integrem as redes de assistência à saúde e à habitação”, afirma a economista Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

O universo estudado é amplo e diverso, tanto no que se refere às instituições como no perfil dos seus clientes. Mesmo nos locais mais simples, aqueles que lá habitam podem encontrar benefícios de que não dispunham quando viviam fora deles. Para os cidadãos de baixa renda, estar em um asilo pode significar ter acesso a atendimento médico e a outros cuidados com a saúde que eles não conseguiriam do lado de fora. Para os de poder aquisitivo mais elevado, pode representar o resgate do convívio social, já que, em geral, eles vão para o asilo ao perder a autonomia e a capacidade de administrar a própria vida. Numa instituição destinada a pessoas de sua idade, os idosos têm a oportunidade de conviver com outras de interesses semelhantes e de participar de atividades em conjunto
.
É o que acontece no Lar Betânia, em Joinville. A entidade, que funciona há oito anos, abriga atualmente 42 idosos com capacidades reduzidas. O instituto conta com uma equipe de enfermagem, médico geriatra, terapeutas ocupacionais e voluntários que desenvolvem trabalhos estimulantes com os moradores. Eles também recebem massagista e cabeleireira.

Maria Augusta, 42 anos, é estilista, casada e mora no centro da cidade. Há seis anos atua como voluntária no Lar, realizando trabalhos de artesanato. “Pra mim é muito gratificante tirar um sorriso do rosto deles”, relata. A voluntária acrescenta que muitos idosos não têm motivação para realizar os trabalhos manuais e preferem o sossego de seus quartos. Segundo ela o artesanato ajuda na coordenação motora e na saúde mental dos velhos.


A adaptação ao asilo, segundo o estudo do IPEA, é bastante influenciada pela expectativa que o idoso tinha de ser ou não cuidado por parentes. Há os que foram para lá por decisão arbitrária da família. Outros que escolheram viver em asilo por achar que teriam mais liberdade do que na casa de parentes.

É o caso de Helena Beutrame, 79 anos, viúva e mãe de um filho. Ela é moradora do Lar Betânia há quatro anos e veio por vontade própria. “Eu amo viver aqui. Sou bem tratada e vivo muito feliz. Aqui é tudo de bom”, relata com entusiasmo. Helena conheceu a entidade através de seu médico que também trabalhava no instituto. Ela gosta de trabalhos manuais, de cozinhar e sua atividade preferida é o tricô. Acrescenta que o silêncio do Lar abafa o barulho do mundo e que aqui há paz.

Parte da imagem de “ente câmara da morte” vinculada aos asilos foi construída em décadas passadas, quando eles abrigavam pessoas abandonadas ou indesejadas pela sociedade – loucos, crianças, moradores de rua, prostitutas, homossexuais e velhos. Todos juntos. A má fama é reforçada de tempos em tempos, quando denúncias de maus tratos são divulgadas na mídia. Quem não se lembra da clínica carioca onde mais de 100 velhinhos morreram depois de beber água contaminada? O escândalo ocorreu há 14 anos, mas continua vivo na memória nacional.


Maria Eunice da Silva, 44 anos, é religiosa da congregação das Irmãs Servas do Senhor, com sede em Botucatu, interior de São Paulo. Há quatro meses reside em Joinville, onde desempenha a função de responsável pela cozinha do Lar Betânia. Ela conta que os idosos chegam à entidade, carentes de afeto e de amor. Alguns deles, maltratados pelos parentes, acabam vivendo isolados dos companheiros da casa. Mas essa realidade muda em pouco tempo e logo o convivo social ajuda na reabilitação. “Ver o sorriso estampado no rosto e saber que aqui eles são amados, não tem dinheiro que pague”, diz a irmã.

Nadir Siveria, 63 anos, é a Irmã superiora da comunidade Servas do Senhor em Joinville. Seu trabalho está voltado à atenção em nível social, cuidando da portaria e recepcionando os visitantes. A irmã explica que os idosos são carentes de afeto, carinho e principalmente de família. “Aqui eles são amados, ganham carinho, atenção e os cuidados necessários para uma vivência melhor”, afirma. A freira acrescenta que o trabalho que desempenha confirma a opção religiosa que fez.

Segundo a assistente social responsável pelo Lar Betânia, o instituto é carente de diversos aspectos. De toda a renda que a entidade dispõe 80% é destinado para o pagamento de funcionários e apenas 20% sobram para os idosos. “Há falta de material de higiene e alimentação, por exemplo. A manutenção da casa também é custosa, pois os idosos requerem cuidados especiais, e a estrutura deve ser toda planejada e adaptada para eles”. Comenta.

Dez ou 15 anos atrás, os idosos que iam para os asilos sabiam que estavam no fim. Hoje, com o aumento da longevidade, esses locais têm de ser agradáveis para se viver. A discussão é, de fato, cada vez mais relevante. Pela primeira vez na história, a faixa etária que mais cresce no país é a dos cidadãos de 60 anos ou mais. Trata-se de um batalhão composto por cerca de 20 milhões de pessoas de perfil heterogêneo – com expectativas, desejos e necessidades diferentes. Esse grupo é tão elástico e variado que reúne uma porção de integrantes com mais de 90 anos, lúcidos e autônomos, enquanto outros na ‘casa’ dos 60, estão completamente dependentes. Essa nova dinâmica demográfica, repleta de nuances, exigirá que o governo brasileiro e o setor privado invistam em formas alternativas de moradia para a terceira idade. E que a população debata abertamente – e sem preconceitos - o destino dos velhos.

O crescimento da proporção de idosos é resultado da combinação de dois fatores: queda da fecundidade e ampliação da longevidade. Somente nos últimos 30 anos, a expectativa de vida aumentou, em média, 10 anos no Brasil. E a quantidade de filhos por mulher caiu pela metade – hoje é de 1,8 filho. Em 1950 o país era o 16° do mundo em número de velhos. As projeções indicam que, até 2025, será o sexto. Por volta de 2035, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes. Para cada grupo de 100 brasileiros, há dez com 60 anos ou mais atualmente. Haverá 19 em 2030 e 30 em 2050. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, 25% das famílias já têm um idoso em casa.


Histórias felizes vividas em instituições têm sido ouvidas com mais freqüência e mostram, assim como os números, o surgimento de um novo cenário para os mais velhos. Segundo a Organização Mundial Saúde, mais de 2,3 milhões de idosos brasileiros têm sérias dificuldades para realizar atividades básicas da vida diária – como se alimentar, tomar banho e ir ao banheiro. Isso significa que, de cada 100 pessoas nessa faixa etária, 11 precisam ser cuidadas. Se a projeção da OMS se confirmar, em 2030, cinco milhões precisarão de auxilio permanente.

Ajude o Lar Betânia a fazer brotar o sorriso nas faces tão sofridas. Faça sua doação. Agência 4074 Conta corrente 20414-5 Banco Sicred 748

Nenhum comentário:

Postar um comentário